[032] Insuportável? Eu?
O que muda nas relações durante a menopausa
Descoberta Anterior
A perimenopausa começa antes do diagnóstico
Esta é a segunda edição de uma série sobre menopausa e perimenopausa no Mapa da Coragem. As respostas da segunda fase da pesquisa chegaram com um padrão que o instrumento não estava buscando: mulheres em reorganização hormonal carregando a mesma exigência de sempre. Nas próximas edições, cada camada do Mapa recebe esse dado, uma por uma.
Ela me contou que as coisas foram mudando aos poucos.
O corpo foi ficando diferente, e junto com ele, a tolerância para certas coisas foi diminuindo. O que antes ela deixava passar começou a pesar e ela não conseguia mais ignorar.
Então começou a se posicionar.
Um não que antes não sairia. Uma situação que ela deixaria pra lá porque era mais fácil. E conforme foi se posicionando, as amizades começaram a estremecer.
Algumas pessoas se afastaram. Outras reagiram como se ela tivesse mudado de um jeito que não era bem-vindo. O corpo estava pedindo uma coisa. As amizades estavam cobrando outra.
Ela estava na perimenopausa.
O que o Mapa encontrou
Na primeira fase da pesquisa, meu próprio mapa mostrou a Coragem Social pedindo atenção. Eu colocava limites. Mas na hora de sustentá-los, vinha a culpa. Levei para a terapia. Na segunda fase, esse campo tinha mudado.
Conversei com uma das participantes que apareceu com um resultado semelhante: ela também está na perimenopausa. Me contou que as amizades foram estranhando quando ela começou a se posicionar. Como se ela tivesse mudado as regras no meio do jogo.
Coragem com Recorte
Mas tem uma camada nessa história que apareceu mais do que eu esperava.
Quando entro em contato com as participantes depois do mapeamento, algumas topam conversar sobre o resultado. É nessas conversas que certas situações aparecem.
Uma mulher me disse que nunca tinha percebido que estava apenas sendo “útil" em vez de presente. Eram coisas diferentes. Ela tem cinquenta e dois anos e, conhecendo bem esse lugar, não soube o que responder.
“Não era escolha”, ela repetiu. “Eu aprendi que aquilo era seguro.”
Também me contou que quando começou a dizer não, as pessoas começaram a dizer que ela estava muito “mudada”. Mas as regras do antigo jogo nunca tinham sido dela.
Numa dessas conversas, uma mulher foi descrevendo o parceiro. Ele achava que tinha direito de opinar sobre com quem ela saía, como ela se vestia. Chamava isso de cuidado. Ela concordava. Demorou anos para perceber que estava concordando com medo.
Isso foi numa época em que o abuso não tinha nome ainda. E depois de tanto tempo no mesmo padrão, mesmo que alguém diga que é abuso, ela não consegue concordar. Já se acostumou.
O corpo, no entanto, aprende. Ela me disse que não sabia de onde vinham as reações. Só sabia que estavam aparecendo. “Eu estava guardando, guardando, e agora não consigo guardar mais.”
Um caso que apareceu com certa frequência: a mulher que perdeu o parceiro e que, com o luto, começou a perceber que o que sentia não era só saudade. Tinha “um quê” de leveza.
Uma delas ficou me olhando depois de dizer isso, como se estivesse testando se era permitido. E pode sim ser as duas coisas.
Ela não tinha com quem falar sobre isso. “Quem morre vira santo”, ela disse. A dor todo mundo entendia, já o alívio não tinha para onde ir.
Notas do Lab
Fiquei pensando nisso quando cruzei com as pesquisas sobre o impacto do estrogênio na amígdala – termos que eu nem usava antes de buscar respostas para o que aparecia nos relatórios. Descobrir que essa estrutura minúscula no cérebro detecta e reage a ameaças sociais muito antes de qualquer raciocínio entrar em cena explicava tudo aquilo.
Conforme eu ia conversando com as mulheres, as peças biológicas e emocionais iam se encaixando. O ambiente em volta delas não tinha mudado. As cobranças continuavam as mesmas. Mas, com a mudança hormonal alterando a resposta do corpo ao estresse, elas simplesmente já não conseguiam mais jogar daquele jeito.
Se essas mulheres deixam o lugar da “utilidade”, pode ser que sejam vistas como “insuportáveis, muito difíceis de lidar”.
Se você participou do Mapa e quer compartilhar suas percepções, me manda uma mensagem.
Este é um dos territórios do Coragem Lab. Conheça o ecossistema completo.


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